emílio

Da sua porta, Joaquim Emílio Correia vê uma cidade em contínua metamorfose, muito diferente da que povoa as suas memórias de infância. Natural e residente na cidade de Portalegre, os seus 88 anos de idade foram vividos entre as dificuldades comuns à maioria da população do Alentejo, principalmente na primeira metade do último século.
Depois de passar por diversos ofícios, dedicou os últimos 20 anos da sua vida a uma profissão sem nome que lhe ocupa os dias e a mente. Florista, agricultor e vendedor de carvão são algumas das designações que lhe poderiam assentar, dependendo da altura do ano e dos recursos naturais disponíveis.

É no espaço húmido e escuro onde passa os dias que guarda matéria-prima e produto final. Da porta estreita vislumbra-se a sua silhueta sentada num pequeno banco de madeira a entrelaçar flores e ramos, idealizando arranjos e pequenas coroas.
Nesta altura do ano dedica-se à venda destes artigos, mas também dos poucos produtos frutícolas que vai tirando da sua horta. No que respeita aos arranjos florais, diz que os seus maiores clientes “são os turistas, ou então para as festas ou casamentos”.
Saudoso do tempo em que “a cidade estava sempre cheia de gente”, reconhece um outro rumo tomado pelas populações. “Dantes, todos queriam vir viver para a cidade. Agora é ao contrário, sai toda a gente. Se dermos por aqui uma volta, começamos a ver que vai estando tudo fechado”. Os hipermercados na periferia da cidade, tal como a variante que desvia o trânsito automóvel do centro histórico são, na sua opinião, elementos a ter em conta.
Cá fora, encostados à parede velha, tem vários molhos de trigo, centeio e palanco, mas também caixas de ameixas e sacos de picão. Encostado à ombreira, fala-nos de tempos idos. “Comecei a trabalhar aos sete anos, quando fui tomar conta de uma menina pequena. Depois veio a agricultura, a venda de leite, o trabalho na Serraleite e nas obras públicas”.
Um acidente marcou-lhe o rosto e a vida. “Saí e meti-me por minha conta”, diz. A sua antiguidade na rua é evidente. Na meia hora em que estivemos à conversa foram várias as pessoas que passaram e o cumprimentaram, todas elas parte viva de um centro histórico que resiste a um abandono contínuo, consequência de vários erros de planeamento urbanístico, mas também dos novos tempos.
Pedimos-lhe para entrar pela perigosa ciência da Futurologia para nos dizer como estará a cidade daqui a 30 anos. “Para ser sincero, não lhe vejo melhoras. As pessoas estão a ir-se embora cada vez mais. E o mal disto também é não deixar trabalhar os jovens. Não é com dezoito anos que se vai adomar o corpo ao trabalho. Deviam fazê-los estudar, mas ao mesmo tempo, deviam deixá-los trabalhar”.
Depois de algumas considerações acerca das diferenças entre o antes e o agora, volta às plantas que utiliza. A maioria colhe-as dos campos, mas algumas flores são plantadas na sua horta, principalmente no mês de Maio. Marcelas, sempre-vivas, atabuas ou flores de prata são algumas das espécies que utiliza.

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